VALOR DA ALFABETIZAÇÃO.

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Paulo é um garoto de muitos valores. Não digo valores materiais. Falo de valores internos, Paulo é um menino de ouro, de uma família pobre, mas rica de espírito e caráter.

Em seu colchão, no chão de sua casa, Paulo lembra de Charlie, um menino que ajudou quando estava alcoolizado no meio da calçada e que a partir desse momento, nasceu uma grande amizade entre um menino pobre e um menino da elite. Lembrou do apoio de Charlie quando Paulo contou que ia começar a estudar. Falando em começar a estudar, já devia estar na hora de se levantar, afinal a escola era longe e ele não dispunha de um carro para levá-lo até lá. Sentou-se no colchão e olhou a cama antiga de solteiro ao lado. Sua mãe já saíra. Ia trabalhar em uma casa muito longe de onde morava e tinha que sair muito cedo para pegar o ônibus. Mais um dia começara.

Depois de aproximadamente meia hora andando, Paulo já avistava o telhado de sua nova escola e ouvia gritos e risadas exageradas. Ficou feliz e sentiu um nervosismo que nunca tivera antes.

Já no começo da primeira aula, Paulo já ficara admirado. Tanta coisa nova aprenderia, pensou até em ensiná-las à sua mãe, que nunca teve essa chance. Sentiu uma forte emoção, que quase o fez chorar. Estava maravilhado em poder desfrutar de um ensino que faria tanta diferença em sua vida, mesmo não sendo um dos melhores.

Ao passar do tempo, Paulo usara sua dedicação para aprender tudo que podia, já estava sabendo ler muitas palavras complexas e escrever algumas simples. Estava orgulhoso de si, começando a interpretar textos e a escrever seu nome inteiro. Só ouvia elogios de suas professoras, que diziam que nunca viram um aluno de escola pública se dedicar tanto. Uma delas falou que ia tentar arranjar uma bolsa em uma escola particular. A cada conquista, Paulo ficava mais feliz. Começou até a dar aulas para sua mãe e irmã, que já conseguiam ler rótulos de produtos, graças ao filho e irmão.

Certo dia, uma das professoras preferidas de Paulo veio até ele, com um sorriso contagiante em sua face. O menino, já começando a sorrir também, mesmo sem saber o motivo de tanta alegria, perguntou à professora o que acontecia para tanta felicidade. A professora, com certa ansiedade como a de uma criança ao ganhar um doce, chamou o garoto em um canto e disse em suaves sussurros a novidade que o alegrara como no dia de sua primeira aula, ou até mais. Ele não conseguia se conter, lágrimas escorriam sobre seu rosto, parecia que tinha ganhado na loteria. De certa forma, para ele era um prêmio à altura. A professora conseguira arranjar uma bolsa em uma escola particular ótima.

Ao chegar em casa, gritos e gargalhadas assustaram sua mãe e irmã, que se perguntavam o que havia acontecido para tanta gritaria. Ao contar-lhes a notícia da nova escola, sua mãe começou a chorar, comentou o orgulho imenso que sentia pelo filho e abraçou-o tão forte que Paulo sentia seu corpo ser esmagado pelos grossos braços da mãe. Comentou que, para entrar na nova escola, ele precisava fazer a matrícula. Partiram os dois, mãe e filho em direção à oportunidade que mudaria o futuro de Paulo.

Já, no prédio da escola, um lugar chique e enorme, informaram-se e foram em direção às escadas. Uma moça simpática deu-lhes a opção de subir de elevador. Como nunca tinham andado antes, aceitaram, mesmo que com o nervosismo de uma primeira vez em uma montanha-russa. Ao entrarem no elevador, seguiram as instruções e apertaram o botão de número onze, que Paulo já sabia identificar muito bem.

Nos primeiros andares, uma beleza, uma sensação maravilhosa. Ao chegarem ao sétimo andar, o elevador parou, um problema típico de elevadores. Se o elevador tivesse parado, mas depois de quinze minutos começasse a andar, ia ser tudo muito tranqüilo. Porém, o elevador começou a ranger ao invés de subir e eles começaram a sentir um cheiro desagradável de fios queimando. Paulo deduziu que estava ocorrendo um aquecimento nos fios superiores do elevador e se não agissem rápido, o elevador iria pegar fogo em pouco tempo. Nos primeiros momentos, os dois começaram a ficar nervosos e impacientes, estressados e começando a “perder a cabeça”. Paulo disse que nessas horas, o mais importante é manter a calma, para conseguir raciocinar direito e resolver a situação o mais rápido possível. Começou a procurar uma forma de escapar, uma solução. Até achar um quadro de avisos e precauções. Na hora, o nervosismo se apoderou de Paulo e ele começou a pensar que não conseguiria ler, ou se conseguisse, não conseguiria interpretar o texto. Mas com uma leve carícia de sua mãe em suas costas, como um ato que dissesse: “Você consegue”, Paulo começou a interpretar cada letra, sílaba, palavra, frase, enfim, conseguiu obter um modo de escapar e de saírem ilesos da situação. No aviso estava escrito que, em caso de o elevador parar na metade do percurso, era preciso apertar o botão de emergência e aguardar que em pouco tempo a ajuda chegaria. Pois foi exatamente isso que aconteceu. Paulo chamou ajuda e dois bombeiros os tiraram de dentro do elevador e desligaram os fios que estavam com problemas. Ocorreu tudo perfeitamente bem. Tudo graças à alfabetização do filho, que não esperava utilidades da leitura muito além das carreiras de trabalho. Após muitas desculpas, a matrícula foi feita. A partir desse dia, Paulo ia aprender muito mais do que já estava aprendendo, arrumar um emprego num futuro próximo e quem sabe, salvar a vida de mais alguém.

Débora Lara

Letícia Oliveira

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